amores expresos, blog da Antonia

terça-feira, 30 de outubro de 2007

SHERABLING (II)




Eu fico até um pouco envergonhada de dizer isso pra vocês porque soa um tanto naif, mas cheguei na Índia dos meus sonhos; um lugar doce onde as pessoas são gentis, delicadas, alegres, generosas, agem sem esperar nada em troca, sorriem todo o tempo e é um sorriso que vem do coração, assim como são todos seus atos - estão sempre vindo do coração. E é na Índia, embora seja num monastério budista na região do Little Tibet. Acho bonito que a Índia receba um outro país em seu território, acho isso feminino como a Índia mítica é, feminino como são suas privadas pra dentro da terra. Aqui, nesse pequeno país-paraíso cercado por árvores, flores e bandeirolas coloridas, os pássaros cantam o dia inteiro e interagem com o canto dos monges e lamas; aqui, todo mundo é feliz - parece que colocaram prozac na água das pessoas; aqui é um monastério budista, uma universidade rigorosa, onde, depois de 12 anos de estudos filosóficos os monges podem ingressar num retiro de 3 anos, 3 meses e 3 dias para tornarem-se lamas; mas aqui tem little lamas também, crianças e jovens que estudam caligrafia, canto, dança, inglês e, nesse momento, ensaiam uma coreografia para um puja vindouro; infelizmente, o grupo do canto está de férias – só os vi na segunda porque cantavam para um documentário da BBC; come-se mal aqui – eles não ligam para essas coisas que eu dou a maior bola; às vezes, aqui, não se sabe direito se um monge é homem ou mulher, porque todos têm cabelos raspados e são castos; aqui estamos no vale do kangra, baixo Himalaya, a 2000 metros de altitude, onde o clima é temperado e faz muito frio de manhã e à noite; foi aqui a primeira vez que eu olhei uma foto do Dalai Lama com atenção, olhei bem dentro dos seus olhos e pude ver seu entusiasmo; aqui eu descobri o décimo sétimo Karmapa; aqui não existe coincidência, mas o tempo todo acontecem coisas mágicas, como ontem, quando fui até a livraria procurar uns livros e acabei conhecendo um monge estudante de filosofia, cujo hobby é fotografia, e ficamos de papo até encontrarmos um amigo em comum: Shoban. Paljung sorriu ainda mais e me disse que fotografou justamente o assunto que vim pesquisar, então fomos para fora loja, sentamos ao sol, onde ele me mostrou suas fotos; aqui parece que as coisas acontecem sem que se precise de muito esforço; aqui os monges retirados por três anos cantam até tarde, então vamos dormir cedo embalados por sua música; aqui é o lugar.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

SHERABLING (I)




Acabei de chegar no Monasterio budista de Sherablin, proximo aos Himalayas. Escutei um canto barbaro no fim de tarde, com mantras em ritmo rock'n'roll (esse monges ganharam o grammy em 2004). Tenho mil anotacoes mas pouca coisa no computador, entao dou noticias amanha - ateh pq pega muito mal ficar escrevendo em computador de cyber, sem acentuacao.

sábado, 27 de outubro de 2007

A circunferência da lua é oval e a cada 18,5 anos ela percorre o trecho mais próximo à terra. Quando esse período coincide com a lua cheia, é um assombro - como foi na noite passada e na anterior.

Vi a lua gigante sobre o Mar da Arábia quando saía de Mumbai, às 5h30. Ainda era noite e eu estava num taxi a caminho do aeroporto, onde peguei um avião pra Delhi, depois outro para Dharamsala, então um carro me levou até Mcleod Gang, baixo Himalaya, a cidade sede do governo exilado do Tibet – aqui reside o Dalai Lama.

É bonito que a Índia abrigue um outro país dentro de seu território, foi lindo sair do hotel à noite e cruzar com dezenas de monges vestidos de vinho, todos cantando um mantra e um carregando um vela na mão. Segui-os e fui parar no pátio do principal templo da cidade, onde houve uma manifestação contra os abusos do governo chinês. Lá estavam crianças, homens, mulheres, velhos, todos unidos, sonhando um sonho de liberdade – cada vez mais distante.

Quando saímos do templo, a lua gigante iluminava as montanhas.

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A cidade tem uma rua e é cercada por cedros. O ar e a rua são limpos. Nao tem muitos indianos por aqui, a maioria é tibetana. Um povo tranqüilo, simpático, que fala namaste na rua quando cruza com vc, sorri mesmo quando te pede dinheiro. Há um clima hippie e muitos gringos em-busca-de-um-algo-a-mais circulando com livros sobre “o poder da mente” e “passos para a iluminação”, cartazes colados nas paredes anunciando massagens tibetanas, reikes e reflexologia, vez por outra pode-se ouvir um violão tocando Pink Floyd, ambulantes vendendo cd’s piratas dos Beatles e mantras.



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Conheci uma turma de gringos – 2 suecas, 1 inglesa e 1 americano – com quem passei o dia. Nascidos entre 87 e 88, todos se formaram recentemente, não sabem bem o que fazer da vida e estão aqui em busca de crescimento existencial, de um desafio que lhes fortaleça na idade adulta - são filhos do primeiro mundo (no Brasil a gente jah nasce escutando um se vira malandro na orelha).

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

OBSERVAÇÕES SOBRE AS CASTAS

Ontem tive a oportunidade de jantar com um francês que mora e trabalha numa grande empresa de alta tecnologia em Delhi. Segundo Jean-François, a casta atrapalha muito, a ponto de a Índia ser o país com maior índice de executivos estrangeiros quebrando contrato, implorando para irem embora. O próprio Jean-François, que está há 12 anos vivendo em diferentes países, sempre a trabalho, aceitou vir pra cá e ficar dois anos desde que, depois da estadia indiana, ele pudesse voltar a trabalhar na França.

Ele contou que os trabalhadores indianos mais qualificados só pensam em ser gerentes e diretores para ganharem mais, juntar dinheiro e poderem arrumar uma esposa de casta superior – única forma de ascender no sistema. Mas no momento em que são promovidos, colocam os pés pra cima, o paletó na cadeira e só dão ordens, não fazem mais nada.

Já para os empregos menos qualificados a questão é da especificidade do trabalho. O sujeito que tira xerox não é o mesmo que leva a cópia para a mesa do chefe. Há um indiano contratado para colocar o cabo do computador na tomada, outro para ligar a impressora. Numa casa normal, com apenas um casal, há a cozinheira, a passadeira, a arrumadeira, a faxineira, e não peça à arrumadeira para limpar os vidros que isso é atribuição de faxineira, não dela. Na pousada onde fiquei em Varanasi, para manter os 18 quartos havia um exército de 16 empregados: 2 marceneiros, 2 pintores, 1 homem para limpar os tampos das mesas, outro para limpar o chão, 1 fazedor de camas, outro trocador de toalhas, 2 jardineiros, 1 homem responsável pela lavanderia, outros 2 pela cozinha, 1 na pia, 2 na recepção. Cada um desses trabalhadores ganha em média 40 dólares por mês. E o motorista do Jean-François, que ganha 150 dólares, é considerado classe média.

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Uma informação que me surpreendeu é que existe a casta dos mendigos. Eu sempre imaginei que, fora os clochards franceses, a mendicância fosse conseqüência, um estágio final, a desestrutura completa de alguém que fracassou no trabalho, não tem mãe, pai, família, esposa, filhos, amigos, ninguém a recorrer, então cai na rua. Mas aqui é princípio, começa-se mendigo e sem a perspectiva de sair da mendicância, o que, em verdade, seria uma transgressão, na medida em que o pedinte é filho de pedinte, neto de pedinte, bisneto de pedinte e, portanto, será pedinte também. Fiquei algum tempo me perguntando qual seria a função do mendigo no sistema holístico que estrutura as castas na Índia e, depois de algumas horas me dei conta: dar esmolas é um modo de aliviar o karma.

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MUMBAI À NOITE

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Algumas fotos que sempre quis postar e nunca consegui

O RIO GANGES, VARANASI




ANTONIA E FRANCISCO NO TAJ MAHAL



OS MACACOS DE GALTA



O CAOS URBANO DE DELHI

VERY MUCH BOMBAY

Terça feira é dia de Ganesha na Índia inteira. Nesse dia, minha nova amiga Payal Parekh faz jejum em homenagem ao deus com cabeça de elefante. Seu pai, Bharat Parekh, diz a ela que me leve ao templo naquela noite. Ele me explica que, para provar fé e devoção ao deus, é comum as pessoas caminharem descalças, de suas casas até o templo – que é longe. Às 22h, vestida com uma roupa limpa e fresca, sem ter ido ao banheiro depois do banho, ou seja, pura, na concepção hindu, Payal me apanha de carro em frente ao hotel para irmos ter com seu deus.

Pergunto-lhe sobre sua predileção especial por Ganesha e ela me explica que ama elefantes, que seu coração derrete-se ao vê-los, que o modo como as fêmeas elefante tratam seus filhotes a emociona, que os elefantes vivem cem anos e lembram-se de tudo o que lhes aconteceu e que, quando se sente sozinha, triste ou angustiada, e entra num templo para buscar Ganesha, seu coração encontra paz.

Particularmente, eu tenho uma queda especial por ele. Acho-o alegre, divertido, bem humorado. É ele quem, com a ponta da unha coberta de tinta, redige o Mahabarata narrado por Vyasa e, embora Sarasvati seja a deusa do conhecimento, Ganesha é o padrinho das letras.

O caminho até o templo é longo, Payal me apresenta uma outra Mumbai ainda banhada pelo Mar da Arábia, mas com casas novas e enormes à beira-mar. Depois entramos numa rua onde de um lado da calçada estão prédios-cortiço e, do lado oposto, espigões modernos super habitados, como não poderia ser diferente, ao final dessa grande área, está uma favela bem miserável.

As ruas ao redor do templo estão lotadas de carros, motos, famílias. Vem gente de toda Mumbai venerar Ganesha. O clima é de festa. Entre o posto de gasolina onde Payal tem um esquema de estacionamento e a calçada do templo, há uma rua impossível de atravessar, onde não parece haver duas pistas, ida e volta, mas apenas uma, totalmente mistura. Colo nela e lá vamos nós.

Todos os devotos são revistados na entrada, a fila para entrar no templo é grande. As ameaças terroristas a templos como este são constantes e, nesse momento, Bombay e Delhi estão sob alerta vermelho – pode acontecer uma explosão a qualquer momento e, desde que cheguei, há 23 dias, já houve dois pequenos ataques aos mulçumanos na Índia.

O templo fica num prédio redondo que parece um bolo de casamento, cheio de andares e com uma cúpula bem iluminada no alto. Ao redor dele, há um teto com pé direito alto, de 10 metros, que cria um cima de galpão e protege a pequena feira onde são vendidas guirlandas, flores, doces, cocos para ofertar ao deus.

As guirlandas são especialmente bonitas. Há vários modelos com diferentes flores e preços: toda em cravos amarelos; com jasmim fechado enrolado por pétalas de rosa; com jasmim aberto misturado aos cravos amarelos; com cravos, jasmim aberto e fechado e orquídeas lilás. São dezenas de barracas de flores, um templo todo perfumado.

Depois de compramos nossas oferendas e deixarmos nossos sapatos com um guardador, nos encaminhamos para a express line, onde fiéis apressados chegam mais rápido ao deus pagando 50 rúpias. Na fila, Payal me ensina o mantra de Ganesha e explica que deve ser repetido 11 vezes, quando então eu posso pedir-lhe o que desejar. Ela me ensina também, como sua avó a ensinou, que a mão direita é mais pura, portanto é ela que deve oferecer as flores. A ansiedade dos fiéis aumenta com a aproximação do seu momento de corpo a corpo com o deus, aqui, esculpido em ouro, assim como todo o altar. É possível ver o modo como acontece: brâmanes sem camisa, cobertos apenas da cintura para baixo por sarongues de seda vermelho ou laranja, recebem as guirlandas e colocam no pescoço da estátua, recebem os doces e os frutos e deixam-nos aos pés do elefante, e entregam flores, doces e frutos que foram ofertados antes aos novos fiéis, criando assim um grande ritual de troca. Minha vez se aproxima e, claro, o mantra me escapa. Payal me diz novamente as palavras em sânscrito. É tudo muito rápido. Começo a pensar no mantra, mas perco a conta no meio, vou em frente mesmo assim e, quando parece que já deu onze, faço uma oração minha, conversa particular com o deus da prosperidade, entrego minhas flores ao brâmane que me dá dois molhinhos de grama com um ibisco rosa enrolado e um doce que Payal me fala para comer mas nemfodendo. Saímos do altar que, na verdade é mais baixo que o nível do chão, e fico parada olhando os outros fiéis se aproximarem, até que um sujeito me cutuca e pede para eu sair dali. Vejo Payal sentada, com a cabeça encostada no chão, imediatamente o sujeito lança seu corpo todo sobre o chão e bate cabeça para o deus. Sento ao lado dela, que cutuca o chão, e eu obedeço; louvo lord Ganesh.

Então já é hora de ir embora. Vamos saindo do templo lotado, entramos numa outra fila onde há dois relicários dourados com imagens que não reconheço e, mais a frente, um sujeito coloca um pouco de leite sobre a palma da mão direita dos fiéis, que devem beber ou jogar o liquido sobre a cabeça, como uma benção. Avançamos mais ainda na fila e uma senhora nos dá dois pedacinhos de coco. Penso em Ganesha, fecho os olhos e mando os coquinhos para dentro - vamos ver no que dá.

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Drive thru indiano: uma rua sem asfalto, parcamente iluminada e cheia de lixo, uns três caras encostados em suas motos, uma portinhas da onde sai fumaça engordurada. O carro de Payal se aproxima lentamente, e pára. Eu tiro o cinto, ela abaixa os vidros e permanece sentada. Um rapaz magrinho vestindo avental se aproxima, não vejo seu rosto, apenas seu parte de seu corpo. Payal fala com ele em hindi, me pergunta se quero meu kebab vegetariano ou não, escolho vegetariano e com pouca pimenta. Ela fala mais alguma coisa que não compreendo e, depois me diz que pediu ao sujeito que cozinhasse bem meu tofu para que eu não adoeça, e me garante que, naquele lugar, a comida de rua, famosa em Bombay, não me deixará com diarréia ou mesmo morta. Em pouco tempo o rapaz retorna com o kebab de tofu e cebola, mezzo spicy, enrolado num guardanapo. Abocanho, e... sabe que é muito bom.

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Sobre a possível indigestão: dormi e acordei bem, não passei mal e continuo viva.

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Mais sobre Ganesha:

“Em sua configuração atual, a Ganesha são atribuídas virtudes múltiplas. Suas grandes orelhas significam que se deve ouvir muito, antes de tomar decisões. Os pequenos olhos indicam que se deve manter visão crítica. O grande estômago representa a necessidade de digerir bem as coisas boas e ruins. Um dente quebrado e outro inteiro sugere que a fé deve ser maior do que o conhecimento. Quatro mãos propõem que a paciência deve prevalecer sobre a paixão e o vício. Boca pequena, para falar pouco. Pés pequenos para não fazer nada com pressa. Finalmente, o rato que o acompanha e lhe transmite as preces recebidas simboliza a necessidade de manter-se o ego sobre controle.” Do texto do cônsul do Brasil na Índia, Paulo Antonio Pinto, a mim enviado pelo meu querido Plinio Fraga.

sábado, 20 de outubro de 2007

Semana passada eu escrevi dois posts sobre casta. Um deles não foi publicado, mas começava assim: “Aos olhos dos estrangeiros o sistema de castas parece invisível. É muito difícil se aproximar, verdadeiramente, dos indianos. Já conversei com vários indianos homens, motoristas ou guias, garçons de hotéis, mas estou aqui há dez dias e conversei com apenas uma mulher indiana, a Mala, que trabalhava no hotel Jai Mahal, em Jaipur. Na maioria das vezes, quando há alguma aproximação entre estrangeiros e indianos, tenho sempre a sensação de que eles nos olham como turista, como uma potencial fonte de dinheiro e/ou alguém incapaz de compreender seu singular modo de vida.”

Nesses últimos dias eu tive a chance de conversar longamente com mais duas mulheres, ambas muito falantes e abertas – já viveram fora da Índia por uma década. Continuo com a impressão de que eles se fecham ao olhar do outro, mas tenho a sensação de que, lentamente, estou começando a perceber, embora compreenda pouco, as complexidades da vida indiana.

É muito difícil escrever sobre a Índia. Primeiro porque a Índia, tal qual se vê hoje, nunca se viu assim, somente nos últimos 60 anos, após a independência. Mesmo que os indianos hoje se pensem como uma nação, existem várias culturas muito realmente distintas convivendo. Mulçumanos fervorosos que cultuam um só deus são vizinhos de hinduístas igualmente fervorosos mas politeístas. Hinduístas que acreditam no karma têm uma noção completamente diferente de solidariedade - só entre membros da mesma casta –, o que parece um entrave ao combate da desigualdade social, fazem negócio com parsis milionários que investem parte de seus lucros em projetos sociais. Jainistas que são contra a morte de qualquer tipo de animal, inclusive as moscas, deixam seus semelhantes viverem feito ratazanas nas ruas. Mas, claro, aqui não existe noção de semelhante, não existe democracia, existe um sistema hierárquico e, a única religião que o aboliu realmente foi o budismo - grande parte da população das favelas está se convertendo para fugir do sistema de castas, mas ainda assim, somam apenas 6% da população indiana. Privacidade? Não existe. Sem necessidade, eles grudam o corpo contra o seu nas filas indianas, entram no seu quarto sem bater, ou batem cedo demais à sua porta sem nenhum problema. Eles não trabalham com a nossa celebrada idéia de indivíduo. Aqui existe casta, família, grupo, cuja organização é, em grande medida, fundada na oposição puro/ impuro. Mas isso não tem nada a ver com higiene – há muitos estrangeiros que chegam aqui e pegam ameba, apenas transmissível pelo cocô, ou seja, aqui, a gente come cocô dos outros na comida, porque eles cagam na rua (eu já vi dezenas de vezes) e não limpam nem a rua nem as mãos; mas quem liga pra isso num país onde a população se purifica num rio que tem 1,5 milhão de colifórmios fecais por 100 mililitros de água, quando o tolerável é apenas 500 colifórmios por 100 ml?

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

MUMBAI



Era noite e o avião sobrevoava a cidade iluminada, coberta por um manto de fumaça escura que suavizava a presença das luzes douradas, acobreadas e prata que, vistas de cima, pareciam compor uma veste de marajá cheia de pedrarias ou um sari bordado com lantejoulas.

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Dei o primeiro passo em direção à escada para sair do Boeing 737-800, e uma lufada de ar quente, denso, úmido me envolveu, entrou pelas minhas narinas.

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O pátio de pistas, aeronaves e hangares não dizia que estávamos na Índia. Recém reformado, o aeroporto é belo. Organizado, informatizado, amplo, asséptico, como todo aeroporto deve ser. Elegantes adesivos com a posição de lótus decoram as paredes, outros adesivos com as linhas de um rosto feminino ou masculino indicam o banheiro, cuja entrada é de granito azul marinho com pontilhados brilhantes lembrando um céu estrelado.

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A dez metros do portão de desembarque foi construída uma fonte baixa de granito preto e, na mesma altura que ela, continuando para a lateral, está uma mureta onde ficam os motoristas e suas plaquetes com os nomes dos passageiros. Essa solução discreta evita a aproximação dos ávidos indianos, impedidos de morder a jugular dos inocentes turistas.

Uma placa indica as duas filas de táxi: com ou sem ar-condicionado. A essa altura eu já entendi que o barato, na Índia, sai caríssimo. Entrei na fila para os carros com ar-condicionado e logo adiante vi uma outra placa que dizia “service for ladies”; continuei, convicta.

Não havia carros disponíveis. Então, os motoristas dos táxis sem ar-condicionado avançaram. Disse que preferia o outro carro, que poderia esperar. Um deles apontou o estacionamento vazio dos carros com ar-condicionado e disse, “expensive! My car, cheap. Only 500 rupees.”

Me surpreendi quando o indiano com bafo de birita que organizava os táxis for ladies me disse que eles cobravam por taxímetro – era o segundo que eu via na viagem. Quase uma hora depois, quando cheguei ao hotel, paguei 350 rúpias.

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Gigantescos outdoors publicitários cujas palavras de ordem são “dreams” e “future”, enormes canteiros de obras donde nascerão shoppings ou arranha-céus, prédios em reforma, quatro pistas de alta velocidade onde mercedez benz disputam espaço com toyotas. No ar quente e pesado de Mumbai, respira-se os 10% de crescimento.

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O hotel Apollo, minha morada para as próximas semanas, fica ao sul da ilha, e o aeroporto onde desembarquei está plantado no norte, de modo que cruzo toda a cidade naquela noite de quinta feira.

Vejo o caos que caracteriza as cidade indianas onde passei, mas também vejo uma cidade toda sinalizada, com calçadas repletas por barraquinhas de comida e gente andando nas ruas. Vejo mulheres jovens dirigindo scooters. Vejo homens em motos diferentes andando de mãos dadas – não são gays, ou pelo menos dizem que não, aqui o afeto entre amigos pode ser ostentado. Vejo ruas todas enfeitadas com luzes, muitas luzes, como quando no Brasil estamos na Copa do Mundo. Vejo cartazes enormes e mal impressos exibindo a carinha de políticos em quem eu não confiaria nem um segundo. Vejo as imagens de deuses ao lado das desses políticos com pinta de terroristas ou bicheiros. Vejo hordas de pessoas nas ruas. Algumas se encaminham para uma celebração da Deusa Durga. Outras compram seus bilhetes para acompanhar o Navrati, o festival de dança Gujarat que está começando essa noite. Vejo árabes batucando em celebração aos últimos dias do Ramadam. Vejo uma cidade fervendo, cheia de vida.

O carro não desliza porque o trânsito pesado impede, mas vamos indo, ora por largas avenidas, ora por ruas mais estreitas, até chegarmos à bela Marine Drive, a ampla avenida banhada pelo romântico e imundo Mar da Arábia. A vista é bonita. O calçadão é grande, tem bancos onde casais namoram sem se tocar, garotos vadiam, famílias esperam os ônibus. Abro o vidro do carro, sinto o vento, o cheiro fresco de maresia misturada a poeira e poluição.

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Depois de ter pago mais que o dobro do valor da diária do hotel Apollo para me hospedar num pulgueiro em Delhi, não esperava grandes coisas da minha nova morada. Me surpreendi. A suíte é espaçosa, tem 9x4 metros, uma boa cama, um frigobar barulhento, uma mesa de trabalho cuja tomada não funciona, um sofazinho próximo a uma tomada que funciona, um bom banheiro com chuveiro que cai muita água. Ótimo. E, melhor que tudo isso, já que o trânsito da cidade é um dos piores do mundo, é bem localizado. Fico feliz. Somos, eu e Francisco, tomados por aquele pensamento bem classe média de “eu mereço”, sacamos o cartão de crédito e vamos caminhando até o hotel Taj Mahal, just around the corner, para nos esbaldar num belo jantar.

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Zodíaco é o nome do restaurante do hotel, construído por um parsi - gente de origem persa - que cultua Zoroastro. Zodíaco é muito refinado, mas meio vazio. Não se parece em nada com as ruas de Mumbai.

Um garçom se aproxima com uma garrafa de Dom Perignon nas mãos, oferecendo-nos. “Not for us”, diz Francisco, e pede duas cervejas. O garçom insiste, ao que agradecemos gentilmente, e vai abrindo a garrafa, ao que reagimos enérgicos, “no, please”. Então o garçom diz que é uma oferta da casa. Nos olhamos com desconfiança, em português, nos perguntamos se é isso mesmo, depois, incrédula, faço a pergunta “you’re not charging us?”. E ele abre um sorriso e diz que se trata de um welcome. E daí ainda seguiram-se vários welcomes...

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A BOA BAHIA DE BOMBAY




SEUS PRÉDIOS "INCINERADOS"


SUA GENTE

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

BOMBAY




“Greater Bombay’s population, currently nineteen million, is bigger than that of 173 countries in the world. If it were a country by it self in 2004, it would rank fifty-four.... Índia is not an overpopulated country. Its population density is lower than that of many coutries that are not thought of as overpopulated. In 1999, Belgium had a population density of 333 people per square kilometres; the Neatherlands, 385; India, under 304. Singapure has a density of 6500 people per square kilometre; Berlin, the most crowded european city, has 2900 people per square kilometre. The island city of Bombay in 1990 had a density of 15000 people per square kilometre. Some parts of central Bombay have a population density of one million people per square mile. This is the highest number of individuals massed together at any spot in the world. They are not equally disperded across the island. Two-thirds os the city residents are crowded into just 5 per cento of total area, while the richer or more rent-protected one-third monopolize the reimaining 95 per cent."

Maximum City, Suketu Mehta

domingo, 14 de outubro de 2007

Delhi Delícia

Os primeiros 10 dias na Índia foram um choque. Um grande não desse país improvável, às vezes impossível. Delhi, a cidade onde cheguei, não merece ser chamada de cidade. Aquilo é um anárquico aglomerado humano que não parece ter sido criado por ninguém, mas cagado sobre a face da terra. Seus monumentos são belas, suntuosas e ornamentadas construções erguidas ao longo do glorioso império Mogol, mas hoje vivem numa decadência assombrosa. Visitar o Red Fort ou Humayuns Tomb é, sobretudo, uma experiência desoladora, deixa um forte gosto de melancolia no fundo da boca.

Embora eu saiba que os indianos cultuam tanto Vishnu, o deus da preservação, quanto Shiva e Kali, deuses da destruição, e que, portanto, eles têm uma outra relação com o envelhecimento, a decadência, o arruinado - aceitam o trabalho do tempo, diferente de nós, ocidentais, que lutamos contra o tempo o tempo todo -, meu etnocentrismo não consegue deixar de enxergar desmazelo, descuido.

Ao longo dos três dias que passamos em Dehli, duas perguntas nos perturbavam, a saber: “onde estão os milagrosos 10% de crescimento?”, e “de onde vem esse cheiro podre?”. A capital da Índia não é pobre, é miserável. Suas ruas não têm calçada, lata de lixo ou sinal – enquanto NY tem 60.000 semáforos, Delhi sobrevive com apenas 20 – o que inviabiliza qualquer passeio a pé. Mais desagradável que o caos desurbano é o assédio dos indianos aos estrangeiros: seguem-nos oferecendo serviços de transporte, serviço de guia, incensos fedidos, bijuterias vagabundas, roupas etc e, quando você se livra de um, surgem mais três pela frente – afinal de contas, estamos num pais de 1 bilhão de pessoas, 16 milhões só em Delhi. E, sinceramente, o pior não é nada do que falei, mas o modo como os indianos machos e pobres – ou seja, quase todo mundo - olham para as gringas, como se fôssemos um pedaço de alcatra estendido num açougue na Pavuna, como se estivéssemos de fio dental e top less, e eles, de fato, prontos para colocar o pau pra fora e nos enrabar. É nojento. É assustador. E é verdade: a Índia é o país com a maior taxa de estupro do mundo. Tamanha agressividade e hostilidade da parte deles, desperta o mesmo em mim. A opção que eles dão a uma estrangeira é olhá-los de cima, tratá-los pior que a um cachorro sarnento. Um horror. E não pára de ser assim. São multidões o tempo todo e quase não se vê mulheres nas ruas. E todo esse astral, sob um vasto céu azul sem uma única nuvem, com um solzinho abrasador de deserto, termômetros a quase quarenta graus (no verão chega a 50), poluição bombando no ar seco e sem brisa - quando venta é pior porque espalha fedor. O cheiro podre está em todos os lugares, à exceção do nababesco hotel The Imperial, repleto de flores e jasmim. É uma vasta palheta de cheiros, todos fétidos, fragrância esgoto a céu aberto com um toque de curry e suor sobre pele sem banho ao fundo. Delícia.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

ALGUMAS IMPRESSÕES SOBRE O SISTEMA DE CASTAS (I)

Embora tenha sido legalmente abolido por Gandhi em 1947, na independência indiana, o sistema de castas existe. Entretanto, a primeira ministra do país veio de uma casta baixa. Isso é importante, revela que, da parte do governo, existe o desejo de, senão abolir o sistema, pelo menos conseguir relativizá-lo. Mas isso também parece um tanto óbvio, na medida em que deve ser muito difícil governar com os entraves que o sistema impõe.

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Uma boa leitura a respeito é o Homo Hierarchicus, de Luis Dummont – apenas disponível nos sebos virtuais. Dummont oferece algumas noções-chave para compreender, ou tentarmos, o sistema de castas (ou varnas, como são chamados aqui), tais como a idéia de puro e impuro.

O exemplo mais comum no ocidente para a brutalidade do sistema de castas é a condição dos intocáveis, a mais baixa das castas, cuja função, dependendo da sub-casta, pode ser recolher o lixo, limpar a rua, o esgoto, os dejetos, os restos dos cadáveres incinerados: tudo o que há de mais contaminado e contagioso. Nem as sombras dos intocáveis podem passar sobre os corpos dos mais puros. Sem crise. Cada indiano sabe que sem sua função a sociedade não funcionaria, pois um brâmane ou um xátria não vão limpar bosta de vaca na rua.

Em linhas muito gerais, trata-se de um sistema social holístico onde cada casta, e suas sub-castas, têm uma função determinada para o bem da sociedade geral.

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Raj, nosso guia em Varanasi, pertence à casta dos carregadores de liteira de marajás, cuja função é levar o noivo, quando há um casamento no palácio, até o quarto de sua noiva. Não peça a ele que carregue a noiva até o quarto do noivo, pois esse trabalho ele não faria: é de outra casta.

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NOTA PARA OS CHATOS

A primeira parte da viagem, com deslocamentos e alguns hoteis caros foi toda por minha conta.

VARANASI



Foi em Varanasi que, pela primeira vez, eu e Francisco pudemos andar na rua. Embora não tenha calçadas, como nas outras cidades indianas que estivemos, Varanasi é menor. E aqui as pessoas respeitam mais os turistas, basta dizer não duas vezes que eles saem de perto.

Passeamos pelos ghats - pontos de encontro para banho e pujas (rituais hinduístas), ao longo das escadarias à beira do rio Ganges - por duas horas, depois brincamos de seguir um estrangeiro que havíamos visto na noite anterior e parecia perfeitamente integrado à comunidade local, um convertido que era a cara do Bill Clinton. Seguimos Clinton por suas compras um bom tempo, até um buraco aparecer em nosso caminho e ficarmos presos de um lado, esperando bicicletas e pessoas passarem, enquanto o ex-presidente continuava caminhando. Sem ele, seguimos pelas vielas labirínticas em meio à cidade, onde nos perdemos numa alegre e intensa vertigem até chegarmos ao nosso limite, então bastava buscar o Ganges, reencontrar o horizonte, respirar ar “puro” e depois voltar para dentro do labirinto para brincar de se perder de novo.



Em Varanasi, a cidade de Shiva, pela primeira vez, eu me senti bem boa parte do tempo. A cidade é uma das mais antigas do mundo, sua história remonta ao século 1400 A.C.. Considerada o coração do hinduísmo, Varanasi foi alvo de diversos ataques ao longo de sua história. Em 1300 D.C. os afegãos destruíram-na e, séculos depois, o fanático Aurangazeb, último imperador Mogol, acabou com quase todos seus templos – recentemente ainda foi alvo de dois ataques terroristas. Reconstruída há 200 anos, os prédios de Varanasi muitas vezes são feitos de tijolos avermelhados e antigos, a cidade respira, tem jardins, espaços vazios preenchidos pelo verde, por árvores enormes e centenárias, suas construções têm o charme do absurdo, búfalos circulam por toda parte, a cidade é caótica mas fascinante, impregnada de religiosidade, toda construída a partir das margens do Rio Ganges, onde ficam os ghats e seus interessantes, muitas vezes belíssimos rituais. Em Varanasi a pobreza tem dignidade, a cidade não cheira mal, cheira a cinzas dos corpos incinerados ou a brisa fresca trazida dos campos ou do rio. O passeio de barco pelo rio, chamado de mother Ganga, ao nascer e pôr-do-sol é mágico. A luz da cidade é belíssima, sua atmosfera um tanto misteriosa. Segundo a tradição indiana, morrer aqui é alcançar moksha, a libertação do ciclo das reencarnações. É uma cidade que venera o que todos querem esconder: a morte.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

GALTA




A cidade abandonada, reino dos macacos. O proto e o pós-humano. Agora. Com cheiro de bosta de vaca e pêlo de macaco suado. Deslocado, desconcertante. Galta me assusta.

A 20km de Jaipur, capital do árido Rajastão, a estrada que leva a Galta é estreita, vazia de gente, povoada por vacas, quase sem movimento, cheia de árvores, pedras e bela penugem cobrindo as colinas. Entre suas curvas é possível esquecer-se do caos das grandes cidades indianas, das frenéticas e constantes buzinas de seus carros, motos, ônibus, tratores e rickshós; ali, instaura-se um outro tempo, necessário à contemplação de Galta.

Paramos o carro e, antes de entramos na morada de Hanumam, o deus macaco, compramos amendoim para ofertarmos aos guardiões da cidade. A primeira impressão não é das melhores, há arame farpado protegendo os pastos e uma roleta na porta. Desconfio da cidade que excitou Octavio Paz a escrever “O Mono Gramático”, suponho que, definitivamente, não é mais a mesma. À medida que avançamos, aparece um macaco ali, outro lá, rapidamente percebo que estou enganada. Eis que, diante de uma varanda com arabescos e afrescos delicados, surgem vários macacos. A imagem é impressionante. Os bichos de meio metro, penugem acobreada, bunda vermelha e olhos vivos moram ali. São os donos do palácio. Observam-nos lá de cima como proprietários recebendo visitas. É preciso respeitá-los, aquele território não pertence mais aos humanos. Oferecemos amendoins, alguns se aproximam, comem das nossas mãos, até que um deles rouba o saco inteiro – não reparte com seus semelhantes – e acaba com a brincadeira.

Ao lado de uma vaca negra que dorme à sombra de uma grande rocha está um sadhu. No reino dos macacos, os únicos aceitos são eles, os sadhus, os menos e mais humanos dos homens, considerados sagrados na Índia pois renunciaram às suas vidas em busca de uma relação absoluta com o Absoluto. Um deles me olha, faz um sinal convidativo. Me sinto praticamente uma escolhida. Fico num certo impasse, vou ou não? Tenho medo dos sadhus...

Embora esteja fora do tempo e do espaço, Galta vibra, pulsa. Sua população deixou-a em finais dos século XIX, amedrontada pelos ventos que traziam a ameaça de desertificação. Vinte anos depois seus novos habitantes ocupavam-na. Desde aquela época havia, e ainda há, uma fonte de água que jorra constantemente da boca aberta de uma vaca esculpida em mármore. Considerada sagrada, sua água alimenta duas piscinas onde os hindus ainda hoje tomam banhos de purificação.

No alto da cidade há um templo imundo consagrado ao deus Hanumam. E depois uma estrada que leva a um monte de lixo. O templo está fechado, mas é possível ver a carinha do deus macaco. Uno as mãos em reverência, depois vamos indo embora. No caminho, encontramos dois sujeitos que o motorista cumprimenta. Eles nos olham, simpáticos, e dizem que nos conhecem do hotel. Sem a fantasia de marajá e o indefectível gud morrrnig, Madam, não consigo reconhecê-los. Mas quando se apresentam, seus grandes bigodes pintados de negro me fazem lembrá-los. Ficamos ali ainda um breve momento, muito especial, quando os três indianos conversaram entre si, em inglês - por gentileza. E enquanto trocavam aquelas palavras, eles simplesmente eram, sem as mediações turísticas, formais. Galta é um templo hindu. Freqüentado por seres de todos os reinos, renunciantes e gente normal, feito esse sujeito, que passa o dia na porta de um hotel de luxo, encerra seu expediente, tira o chapéu e a baioneta, pega uma bicicleta, pedala vários quilômetros para purificar-se e louvar um dos seus deuses. This is Índia.

sábado, 6 de outubro de 2007

WELCOME TO INDIA!

Foi a primeira frase que ouvi sair da boca dos dois indianos que tentaram, e quase conseguiram, nos passar a perna. Ao atravessarmos o portão de desembarque do perfumado e precário aeroporto de Nova Delhi, capital indiana, eu e Francisco, meu amor, logo fomos abordados por esse sujeito arrumadinho, vestindo calça jeans e camisa para dentro, com os cabelos negros e grossos bem penteados para o lado. Ele nos ofereceu um táxi que aceitamos como dois manés.

Tentando ser esperta, perguntei antes o preço da corrida - havia lido no guia que é importante. E ele, num inglês incompreensível, disse qualquer coisa em rúpias. Perguntei de novo, não entendi novamente, fiquei com preguiça, sorri meio sem graça e disse que precisava fazer o câmbio. Troquei alguns dólares por um paco de dinheiro digno dos nossos piores tempos de inflação. Quando vi, o sujeito já estava colado no Francisco e fomos saindo com ele carregando nossas malas. De repente havia mais cinco indianos e as malas já estavam em suas mãos. Francisco catou meu lap top e fomos correndo atrás dos carregadores até um carro no estacionamento mal iluminado do aeroporto.

Um sétimo indiano estava a postos no volante e, ao entrarmos no veículo, o sujeito arrumadinho nos cobrou caríssimo pelo trajeto. Francisco tentou negociar, enquanto a gangue ficava olhando pro paco de notas, coçando o queixo, pensativos. Escondi o dinheiro e fiz a linha surtada, tipo saindo do carro com a cara fechada, carregando minhas malas e dizendo no, no, no we are not going with you. Fechamos pelo preço que queríamos pagar. Começamos bem, comemoramos. O motorista deu a partida no carro e seguiu pela mão inglesa.



Welcome to Índia, disse ele. Embora estivesse num cenário absolutamente estranho, quase rural, e ao mesmo tempo ao som histérico e constante das buzinas de todo tipo de veículo sobre duas, três ou quatro rodas, tais como tratores, carroças, rickshós, bicicletas, uns poucos automóveis com menos de cinco anos de uso e uns vários carros antigos que me lembraram Cuba, em meio a vacas e cavalos, todos disputando espaço tal qual carrinho bate-bate numa avenida estreita e parcamente iluminada, com um mato no lugar do acostamento onde várias pessoas paravam pra mijar, ainda assim, senti uma felicidade sincera por escutar, novamente, a saudação.

Então o motorista entrou no que, aos nosso olhinhos animados, pareceu ser a cidade. Mas o que surgiu foi uma grande favela. E ali, no cu do mundo, ele começou a procurar o nosso hotel.

Ficamos alguns minutos em silêncio, apenas observando. Vi montanhas de lixo, esgotos a céu aberto, multidões dormindo nas ruas sem calçadas, ruas devastadas com fiação toda de gato, gente doente, aleijada, sem perna, porcos, cachorros magros, uma cidade horrorosa abandonada por todos os deuses. O motorista encostou num hotel podre, com cara de motel da Avenida Brasil, e falou: iz herrre. No entanto, antes de fechar o hotel, eu havia visto a foto do prédio. Não era nenhum sonho de charme e beleza, mas parecia limpinho. Além disso, o decisivo: era caro. Disse ao motorista que não podia ser ali e ele respondeu: no, no madam, iz herrre. Falei de novo que não era, nós tínhamos o voucher do hotel, o nome e tal. Então ele se convenceu e engrenou. Continuamos circulando pela favela-capital, totalmente perdidos e já um tanto nervosos – se fosse no Rio, certamente teríamos levado uns tiros. Até que o motorista encostou o carro num outro hotel tipo classe A de Iguaba e foi se informar. Voltou dizendo que nós deveríamos procurar um tourist office que havia logo ali na frente. No way, dissemos que não sairíamos do carro, que ele era o motorista, portanto deveria se informar. Após uma breve discussão, ele tomou uma reta, andou uns minutos, desacelerou, abaixou o vidro pra se informar em hindi com um indigente e seguiu direto pro hotel.

Ainda demos uma gorjeta em euros pro motorista e dissemos, simpaticamente, que da próxima vez ele deveria se informar melhor. O carro arrancou, entramos na caríssima espelunca fétida - que logo viemos a saber, fica numa área central, conhecidíssima, ainda assim depauperada - e fomos levados ao nosso quarto, com janelas que não abriam por causa dos mosquitos e com uma tela que nos impedia de ver a vista. Welcome to Índia.