amores expresos, blog da Antonia

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

OBSERVAÇÕES SOBRE AS CASTAS

Ontem tive a oportunidade de jantar com um francês que mora e trabalha numa grande empresa de alta tecnologia em Delhi. Segundo Jean-François, a casta atrapalha muito, a ponto de a Índia ser o país com maior índice de executivos estrangeiros quebrando contrato, implorando para irem embora. O próprio Jean-François, que está há 12 anos vivendo em diferentes países, sempre a trabalho, aceitou vir pra cá e ficar dois anos desde que, depois da estadia indiana, ele pudesse voltar a trabalhar na França.

Ele contou que os trabalhadores indianos mais qualificados só pensam em ser gerentes e diretores para ganharem mais, juntar dinheiro e poderem arrumar uma esposa de casta superior – única forma de ascender no sistema. Mas no momento em que são promovidos, colocam os pés pra cima, o paletó na cadeira e só dão ordens, não fazem mais nada.

Já para os empregos menos qualificados a questão é da especificidade do trabalho. O sujeito que tira xerox não é o mesmo que leva a cópia para a mesa do chefe. Há um indiano contratado para colocar o cabo do computador na tomada, outro para ligar a impressora. Numa casa normal, com apenas um casal, há a cozinheira, a passadeira, a arrumadeira, a faxineira, e não peça à arrumadeira para limpar os vidros que isso é atribuição de faxineira, não dela. Na pousada onde fiquei em Varanasi, para manter os 18 quartos havia um exército de 16 empregados: 2 marceneiros, 2 pintores, 1 homem para limpar os tampos das mesas, outro para limpar o chão, 1 fazedor de camas, outro trocador de toalhas, 2 jardineiros, 1 homem responsável pela lavanderia, outros 2 pela cozinha, 1 na pia, 2 na recepção. Cada um desses trabalhadores ganha em média 40 dólares por mês. E o motorista do Jean-François, que ganha 150 dólares, é considerado classe média.

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Uma informação que me surpreendeu é que existe a casta dos mendigos. Eu sempre imaginei que, fora os clochards franceses, a mendicância fosse conseqüência, um estágio final, a desestrutura completa de alguém que fracassou no trabalho, não tem mãe, pai, família, esposa, filhos, amigos, ninguém a recorrer, então cai na rua. Mas aqui é princípio, começa-se mendigo e sem a perspectiva de sair da mendicância, o que, em verdade, seria uma transgressão, na medida em que o pedinte é filho de pedinte, neto de pedinte, bisneto de pedinte e, portanto, será pedinte também. Fiquei algum tempo me perguntando qual seria a função do mendigo no sistema holístico que estrutura as castas na Índia e, depois de algumas horas me dei conta: dar esmolas é um modo de aliviar o karma.

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MUMBAI À NOITE

2 Comentários:

Blogger samba no varal disse...

Mas é muita gente, né? É contra as muitas religiões daí evitar filhos? Quantos filhos em média tem as familías na Índia? Você já fez, ou pretende fazer, alguma aula de yoga?
Abraços
adriana

25 de outubro de 2007 09:26  
Blogger Antonia Pellegrino disse...

filhos: os hindus dizem que, nao ultima década, nao têm mais que 2 filhos e acusam os muçumanos de ter 5, 6, 7, 8. mas eu vejo muito criança hinduista nas comunidades deles.

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yoga? acredita que ainda nao fiz! ia fazer mas preferi ir ao templo do ganesh. agora, quando voltar pra mumbai, uma aula de yoga está na lista das coisas que preciso fazer antes de voltar ao brasil.

3 de novembro de 2007 20:23  

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