amores expresos, blog da Antonia

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

VERY MUCH BOMBAY

Terça feira é dia de Ganesha na Índia inteira. Nesse dia, minha nova amiga Payal Parekh faz jejum em homenagem ao deus com cabeça de elefante. Seu pai, Bharat Parekh, diz a ela que me leve ao templo naquela noite. Ele me explica que, para provar fé e devoção ao deus, é comum as pessoas caminharem descalças, de suas casas até o templo – que é longe. Às 22h, vestida com uma roupa limpa e fresca, sem ter ido ao banheiro depois do banho, ou seja, pura, na concepção hindu, Payal me apanha de carro em frente ao hotel para irmos ter com seu deus.

Pergunto-lhe sobre sua predileção especial por Ganesha e ela me explica que ama elefantes, que seu coração derrete-se ao vê-los, que o modo como as fêmeas elefante tratam seus filhotes a emociona, que os elefantes vivem cem anos e lembram-se de tudo o que lhes aconteceu e que, quando se sente sozinha, triste ou angustiada, e entra num templo para buscar Ganesha, seu coração encontra paz.

Particularmente, eu tenho uma queda especial por ele. Acho-o alegre, divertido, bem humorado. É ele quem, com a ponta da unha coberta de tinta, redige o Mahabarata narrado por Vyasa e, embora Sarasvati seja a deusa do conhecimento, Ganesha é o padrinho das letras.

O caminho até o templo é longo, Payal me apresenta uma outra Mumbai ainda banhada pelo Mar da Arábia, mas com casas novas e enormes à beira-mar. Depois entramos numa rua onde de um lado da calçada estão prédios-cortiço e, do lado oposto, espigões modernos super habitados, como não poderia ser diferente, ao final dessa grande área, está uma favela bem miserável.

As ruas ao redor do templo estão lotadas de carros, motos, famílias. Vem gente de toda Mumbai venerar Ganesha. O clima é de festa. Entre o posto de gasolina onde Payal tem um esquema de estacionamento e a calçada do templo, há uma rua impossível de atravessar, onde não parece haver duas pistas, ida e volta, mas apenas uma, totalmente mistura. Colo nela e lá vamos nós.

Todos os devotos são revistados na entrada, a fila para entrar no templo é grande. As ameaças terroristas a templos como este são constantes e, nesse momento, Bombay e Delhi estão sob alerta vermelho – pode acontecer uma explosão a qualquer momento e, desde que cheguei, há 23 dias, já houve dois pequenos ataques aos mulçumanos na Índia.

O templo fica num prédio redondo que parece um bolo de casamento, cheio de andares e com uma cúpula bem iluminada no alto. Ao redor dele, há um teto com pé direito alto, de 10 metros, que cria um cima de galpão e protege a pequena feira onde são vendidas guirlandas, flores, doces, cocos para ofertar ao deus.

As guirlandas são especialmente bonitas. Há vários modelos com diferentes flores e preços: toda em cravos amarelos; com jasmim fechado enrolado por pétalas de rosa; com jasmim aberto misturado aos cravos amarelos; com cravos, jasmim aberto e fechado e orquídeas lilás. São dezenas de barracas de flores, um templo todo perfumado.

Depois de compramos nossas oferendas e deixarmos nossos sapatos com um guardador, nos encaminhamos para a express line, onde fiéis apressados chegam mais rápido ao deus pagando 50 rúpias. Na fila, Payal me ensina o mantra de Ganesha e explica que deve ser repetido 11 vezes, quando então eu posso pedir-lhe o que desejar. Ela me ensina também, como sua avó a ensinou, que a mão direita é mais pura, portanto é ela que deve oferecer as flores. A ansiedade dos fiéis aumenta com a aproximação do seu momento de corpo a corpo com o deus, aqui, esculpido em ouro, assim como todo o altar. É possível ver o modo como acontece: brâmanes sem camisa, cobertos apenas da cintura para baixo por sarongues de seda vermelho ou laranja, recebem as guirlandas e colocam no pescoço da estátua, recebem os doces e os frutos e deixam-nos aos pés do elefante, e entregam flores, doces e frutos que foram ofertados antes aos novos fiéis, criando assim um grande ritual de troca. Minha vez se aproxima e, claro, o mantra me escapa. Payal me diz novamente as palavras em sânscrito. É tudo muito rápido. Começo a pensar no mantra, mas perco a conta no meio, vou em frente mesmo assim e, quando parece que já deu onze, faço uma oração minha, conversa particular com o deus da prosperidade, entrego minhas flores ao brâmane que me dá dois molhinhos de grama com um ibisco rosa enrolado e um doce que Payal me fala para comer mas nemfodendo. Saímos do altar que, na verdade é mais baixo que o nível do chão, e fico parada olhando os outros fiéis se aproximarem, até que um sujeito me cutuca e pede para eu sair dali. Vejo Payal sentada, com a cabeça encostada no chão, imediatamente o sujeito lança seu corpo todo sobre o chão e bate cabeça para o deus. Sento ao lado dela, que cutuca o chão, e eu obedeço; louvo lord Ganesh.

Então já é hora de ir embora. Vamos saindo do templo lotado, entramos numa outra fila onde há dois relicários dourados com imagens que não reconheço e, mais a frente, um sujeito coloca um pouco de leite sobre a palma da mão direita dos fiéis, que devem beber ou jogar o liquido sobre a cabeça, como uma benção. Avançamos mais ainda na fila e uma senhora nos dá dois pedacinhos de coco. Penso em Ganesha, fecho os olhos e mando os coquinhos para dentro - vamos ver no que dá.

***

Drive thru indiano: uma rua sem asfalto, parcamente iluminada e cheia de lixo, uns três caras encostados em suas motos, uma portinhas da onde sai fumaça engordurada. O carro de Payal se aproxima lentamente, e pára. Eu tiro o cinto, ela abaixa os vidros e permanece sentada. Um rapaz magrinho vestindo avental se aproxima, não vejo seu rosto, apenas seu parte de seu corpo. Payal fala com ele em hindi, me pergunta se quero meu kebab vegetariano ou não, escolho vegetariano e com pouca pimenta. Ela fala mais alguma coisa que não compreendo e, depois me diz que pediu ao sujeito que cozinhasse bem meu tofu para que eu não adoeça, e me garante que, naquele lugar, a comida de rua, famosa em Bombay, não me deixará com diarréia ou mesmo morta. Em pouco tempo o rapaz retorna com o kebab de tofu e cebola, mezzo spicy, enrolado num guardanapo. Abocanho, e... sabe que é muito bom.

***

Sobre a possível indigestão: dormi e acordei bem, não passei mal e continuo viva.

***

Mais sobre Ganesha:

“Em sua configuração atual, a Ganesha são atribuídas virtudes múltiplas. Suas grandes orelhas significam que se deve ouvir muito, antes de tomar decisões. Os pequenos olhos indicam que se deve manter visão crítica. O grande estômago representa a necessidade de digerir bem as coisas boas e ruins. Um dente quebrado e outro inteiro sugere que a fé deve ser maior do que o conhecimento. Quatro mãos propõem que a paciência deve prevalecer sobre a paixão e o vício. Boca pequena, para falar pouco. Pés pequenos para não fazer nada com pressa. Finalmente, o rato que o acompanha e lhe transmite as preces recebidas simboliza a necessidade de manter-se o ego sobre controle.” Do texto do cônsul do Brasil na Índia, Paulo Antonio Pinto, a mim enviado pelo meu querido Plinio Fraga.

4 Comentários:

Blogger Maria disse...

Adorando isso aqui!! Lava sempre a mão heim?! bjobjo

24 de outubro de 2007 07:59  
Blogger Arnaldo Branco disse...

Oi, Antonia, classe isso aqui. Aliás, o projeto já valeu só pelos blogs. Abraço.

24 de outubro de 2007 08:40  
Blogger Antonia Pellegrino disse...

arnaldo! que visita classuda! pinta sempre que der, de vez em quando, ou quase sempre rola uma novidade.

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kouta? é você?

24 de outubro de 2007 09:51  
Blogger samba no varal disse...

Olá Antonia,
já ouvi também que o ratinho inquieto é a mente, correndo de um lado pro outro. E que Ganesha vai na frente, abrindo nosso caminho com a tromba e nos ajudando a controlar a mente, o que talvez seja o mesmo que manter o ego em seu devido lugar.
Que bom que vc comeu, gostou e acordou bem.
Tô adorando o blog.
Abraço
adriana

24 de outubro de 2007 11:03  

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