amores expresos, blog da Antonia

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

ENCERRO MINHA VIAGEM PELO ORIENTE. SERÁ QUE COMEÇA A VIAGEM DO ORIENTE EM MIM?





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Eu queria que vocês soubessem que foram excelentes companheiros de viagens. Eu queria agradecer a cada um dos leitores que entrou nesse blog e fez dele um dos mais visitados do projeto. Saber disso foi um estímulo nos momentos mais difíceis. Embora eu não tenha podido conversar com vocês através dos comentários porque a internet aqui é muito ruim, eu sempre recebi cada palavra com grande carinho e alegria. Tenho muita coisa escrita que não veio pra cá porque talvez vá pro livro. E se eu pudesse pedir uma coisa a vocês, pediria que vocês fossem comigo até o final desse processo, lá quando o livro for lançado.

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O budismo nasceu na Índia e aflorou fora dela. Curiosamente, foram os budistas nepaleses e tibetanos que souberam preservar o melhor da Índia antiga: seus valores: o interno, o dentro, o profundo, a contemplação do silêncio, do vazio, são uma herança indiana atualizada cotidianamente em Sherab Ling, que fica na Índia mas não é a Índia de hoje. Embora eu seja uma moça pop que gosta de gostar das coisas, não há nada que me faça gostar dos indianos. Ter voltado pra Mumbai deixou isso muito claro e, se antes esse era um ponto de conflito para mim, agora não mais. Eu aprendi a aceitar a Índia, mas definitivamente não gosto dela. A lista de razões é enorme e eu estou cansada de sentir raiva daqui, então apenas enuncio o que não tolero: o modo como os homens me olham nas ruas, o fato de estarmos sempre sendo roubados pelos indianos e a noção de higiene deles – que é sem noção. Claro que há indianos interessantes, sobretudo entre os círculos intelectuais, como o Shoban, dulcíssima figura, marido da Florência Costa – meu casal anjo da guarda, responsáveis pela minha viagem ao mosteiro – ou nas classes mais altas, como a Shivani e a Payal. Na melhor das hipóteses, a banda boa corresponde a 10% da população - que não pode nada contra os mais de 1 bilhão da banda pobre.

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Achei engraçado o modo como a Fanny me contou que na Suécia está todo mundo preocupado com o aquecimento global, mas que na Índia parece que ninguém nunca ouviu falar no assunto.

- É tão estranho... parece que os indianos estão vivendo em outro mundo.
- Mas eles estão.
- A Suécia tem 9 milhões de habitantes e todos nós estamos preocupados com o aquecimento global, com o prejuízo que cada uma das nossas vidas causa à Terra. E aqui, parece que eles nem sabem do que se trata! Mas eles são 1 bilhão e 200 milhões e nós somos apenas 9 milhões – o que que a gente ainda pode fazer?
- Torcer pra cair uma bomba atômica sobre essa gente.

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I was made for loving you

You were made for loving me

Sem o Francisco aqui nos primeiro 20 dias, acho que eu teria ido embora; ou teria ficado pra sempre presa numa cadeia por ter cometido homicídio; ou teria ido até o final a base de antidepressivo. Só não aconteceu nada disso porque você esteve comigo, meu amor.

domingo, 4 de novembro de 2007

Diz um verso do Paulinho da Viola que “voltar é sempre partir para um outro lugar”, e eu acho isso lindo. Ontem parti para Mumbai, minha “casinha” provisória, meu barraco com rato no corredor. Estava com muita saudade de um bom banho quente e dos meus cremes L’occitane. O bolota que trabalha de terno na recepção mas usava uma camisa listrada de manga curta pareceu que sentira minha falta, sorriu quando me viu sair do táxi e foi abrir a porta de vidro do hotel. O guardinha iraquiano também ficou feliz ao me encontrar saindo do elevador, eu perguntei-lhe se estava tudo bem, e ele disse que sim, então perguntou-me se tudo estava legal, ao que respondi: fine. A cidade que já é muito iluminada pelas luzes do progresso não é mais a mesma, está ainda iluminada por lâmpadas, velas e abajures coloridos em forma de estrela ou peixe, pois está sendo vestida para o Diwali - uma espécie de ano novo e natal dos indianos, quando eles se reúnem para comer doces de nozes e pistache e comemorar a volta de Rama do exílio. Eu havia feito uma lista de afazeres para a volta, mas talvez nao cumpra nenhum deles. Sabe quando chega o clímax de um filme e depois ainda tem um tempo meio morto antes de acabar? Então, é isso.

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Daqui três noites eu vou dormir agarrada ao meu amor.

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Quando encontrá-los, eu vou beijar a boca do Rodrigo Teixeira e do João Paulo Cuenca.

sábado, 3 de novembro de 2007

Sobre como eu virei uma hippie imunda nos Himalayas

Em Mcleod Gang, Little Tibet, existe uma rede de turismo aventureiro que oferece diversos pacotes de trilhas pelas montanhas. Os percursos variam de 1, 2, 5, 10, até 14 dias. Então a idéia é que você acorde bem cedo, ande umas 4 ou 5 horas diárias, chegue até um lugar aprazível, monte seu acampamento e use o resto das horas de sol para cortar lenha e preparar seus alimentos para o jantar, aí você dorme enrolado no saco de dormir e num bando de cobertores que você carregará nas suas costas ao longo de todo o dia seguinte, sob um céu coalhado de estrelas – lindo como céu de deserto.

Entrei na loja que vende aventuras - ou programas de índio - às 11h, querendo sair ao meio-dia. O atendente disse que não era possível, que eu tinha que sair naquela hora mesmo, senão não daria tempo. “Ok, let’s go”.

Eu e Mr. Tapa, meu guia nepalês, pegamos um rickshaw pra encurtar o caminho, e adentramos a trilha. Lindíssima paisagem, árvores de cedros por toda parte, no solo, grama verde e rochas gigantes, algumas flores pequenas, um cheiro fresco e gostoso de mato, bandeirolas tibetanas por toda parte.

Mcleod Gang fica a 1480 metros de altitude e, quando eu soube que o pico da lua, o lugar onde iríamos, fica a 2800 metros de altitude, quando soube disso, meus pés já estavam com bolhas e ainda faltavam 4 horas de caminhada na subida - pensei seriamente em desistir. Então dois australianos passaram por nós, ambos com a carinha rosada e satisfeita, e aproveitei pra bufar uma pergunta:

- Vale a pena subir até lá?
- Vale, vale sim.
- Vale mesmo?
- É extraordinário.

Então olhei praquele lugar lá no alto, longe, longe, onde eu iria chegar, olhar, e ouvir o Mr. Tapa dizer, agora vamos está anoitecendo; pensei, pensei, e achei que o passeio era, de certo modo, a metáfora concreta dessa viagem à Índia, então resolvi seguir – quem sabe existe mesmo um pote de ouro no final do arco-íris?

Mesmo vendo que eu não tenho condição física pra fazer aquela trilha, Mr. Tapa ainda tentava imprimir um ritmo intenso. Parei, sentei numa pedra e disse a ele que eu não sou uma trekkink pro, que eu trabalho sentada e que eu gosto de parar, não só pra descansar, mas pra contemplar a vista. Mr. Tapa riu, e disse tudo bem. Sentei numa pedra e fiquei ali, em silêncio, olhando o mundo lá do alto, escutando apenas o barulho dos pássaros, sentindo o sol esquentar minha pele e o vento resfriá-la.

A medida que nos aproximávamos do topo da montanha, eu ficava ainda mais cansada, pedia a Mr. Tapa para pararmos de 10 em 10 minutos, brincava com ele que eu ia chorar, então ele, numa animação tremenda, me dizia pra não fazer isso que o urso preto aparece. Então eu me encostava na grama pra descansar, e daqui um pouco escutava Mr. Tapa falando em himáli pelos cotovelos com todos que passavam, inclusive os gringos, que olhavam-no com cara de pastel e faziam “yes, yes”, com um meio sorriso amarelo nos lábios.

Finalmente, chegamos. Eu me joguei numa grama, pedi um prato de comida, e fiquei ali, esticando as pernas e olhando a montanha. Esticando as pernas e olhando a montanha, e olhando a montanha... A Montanha. Absurda. Linda de morrer, dá vontade de passar a vida olhando pra ela. Dá vontade de ser pintora pra pintar aquele deus petrificado. Dá vontade de colocar a cabeça no chão e louvá-la. Dá vontade de escrever um poema. Não dá vontade de descer. Então foi isso que eu disse pro Mr. Tapa, “eu vou ficar, um tibetano me chamou pra dormir numa caverna com um grupo de espanholas, e eu tou indo.”



Mr. Tapa disse que não podia me deixar ali, era a norma da empresa, ele teria que ficar comigo e, pra isso - claro -, eu teria que pagar mais um monte de rúpias. Eu disse que não, que não assinei nenhum contrato, então que ele dissesse na empresa que eu fiquei num outro povoado e voltasse. Ele insistiu, e a montanha ali, me olhando, e eu olhando pra ela, embevecida, e o Tapa mala insistindo em negociar. Resolvi acabar logo com o assunto e disse que, se ele fechasse o valor do quarto – no topo dessa montanha estão 2 biroscas e 3 quartos onde se pode dormir abrigado – a preço de indiano, eu então pagaria pra ele ficar. Mr. Tapa fechou o negócio na hora.

Meus pés estavam destruídos, tirei meu lindo e maltratado par de Onitsua Tiger e fui andar descalça pelo campo, pisando em bosta de ovelha - mas quem está ligando pra isso quando se tem o pico da lua de frente para você?

Eu não me lembro de ter visto um pôr-do-sol como aquele em nenhuma outra cordilheira onde estive. À medida que o dia cai, surge uma linha no horizonte e, abaixo dela, a luz dá lugar à escuridão, mais ainda é dia, então o sol mergulha nesse negror que parece um enorme oceano. Escutei Ipod e cantei. Depois olhei pra trás e vi a minha adorada Moon Pick toda rosa, refletindo os últimos raios de sol, corri até ela, que ficou laranja, então azulada.



À medida que foi anoitecendo, assim como as estrelas surgiram no céu, as luzes dos povoados abaixo de nós foram sendo acesas; eis que tínhamos dois céus, um olhando pro outro, como as asas de uma borboleta. Um frio tremendo tomou conta de tudo, e percebi minha maluquice: eu estava apenas de calça, camiseta e casaco de lã fininha (enquanto os outros vestiam meia, gorro, luva, casaco térmico). Fui me abrigar na fogueira em frente à birosca mas não me senti bem por que ali só tinham homens indianos, então procurei o tal tibetano e as meninas espanholas, que não estavam na caverna, mas próximas.

- Can I join you?
- Of course!

Sentei em cima de uma pedra próxima ao fogo e fiquei ali esquentando meu corpo. Ninguém perguntou o meu nome nem puxou assunto. Então eu comecei a tentar estabelecer uma conversa mas não fui longe, porque o inglês delas era terrível e o dos dois tibetanos pior ainda. As meninas passavam a maior parte do tempo falando em espanhol, e os caras em tibetano; o grupo não juntava lé com cré. Aí fui percebendo que era pior ainda do que eu havia imaginado: nem elas se entendiam - haviam se conhecido fazia pouco tempo, duas eram espanholas e uma chilena.



Peguei meus noodles com vegetais na birosca, comi junto aos meus companheiros, escutei um pouco sobre a viagem delas, falei um pouco de mim e da viagem, um dos tibetanos se animou com o fato de eu estar ali pra escrever um livro, disse que ia contar uma história bela de amor e, quando começou a falar não havia história nenhuma, apenas uma vontade confusa de fazer alguma coisa que se passasse em três tempos: passado, presente, futuro. Dividimos o resto do pacote de biscoito de chocolate que eu tinha na bolsa, vimos o que nos pareceu um O.V.N.I. – claro. Então, quando a fogueira deles estava acabando e o frio começando a retorcer meus ossos, dei boa noite e fui me recolher.

O quarto só tinha quatro janelinhas cobertas por tela, um banheiro em construção e uma cama de casal forrada com um lençol que um dia foi branco, mas naquela noite, após uns 7 anos sem ver uma gota d’água, estava amarelo, puído, coberto de poeira e com cheiro de fumaça, suor e sujeira. Sobre ele, estavam dois cobertores em estado semelhante. Apaguei a luz, tirei meus tênis, deitei de roupa, coloquei meu rostinho no travesseiro de espuma com fronha coberta por bolinhas que mais parecia uma lixa e dormi sem tomar banho.

No dia seguinte, depois de 4 horas de caminhada na descida, quando cheguei ao meu hotel em Mcleod Gang, tomei um longo banho daqueles que enfureceriam Al Gore e, limpa, perfumada, coberta por hidratante, peguei minhas roupas nas mãos: estavam com um cheiro podre de bacon defumado.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007



Hoje faz um mês que cheguei nesse país filho da puta. Se eu tivesse sido mais esperta, teria gasto meu tempo e o meu dinheiro indo de Paris para Berlin, então Kassel, daí 30 dias na Índia, e Brasil, meu Brasil brasileiro. Mas não, caí no conto do sadhu e vim conhecer as mazelas desse país assustador – pra vocês verem como eu não estou louca, até os monges tibetanos, uns santinhos, não gostam muito da Índia ou dos indianos. Por outro lado, acho que a Índia é isso mesmo: este grande perrengue que, quando você tem a possibilidade de fugir dele e se isolar num monastério, num ashram, num curso intensivo de yoga você se joga com a intensidade de um náufrago que encontra um pedaço de madeira flutuando no meio do oceano. Se eu não tivesse sofrido feito uma cadela magra e sarnenta, passado por esse processo intensivo de despojamento, talvez eu chegasse aqui em Sherab Ling e só fosse me ligar na comida péssima e na na bosta que é tomar banho de balde no escuro.

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Sobre os banheiros indianos: nos hotéis medianos a luxuosos são estilo ocidental, mas nos lugares mais simples, como essa guest house no mosteiro – limpinha e ajeitada -, é estilo indiano mesmo, ou seja, sem box, sem cortina, sem banheira, sem aquela proteção pra água não molhar tudo, então fica tudo molhado mesmo e eles não te dão rodo ou tapetinho – sorte que eu roubei uma toalha no hotel de Mcleod Gang, porque não tinha toalha nem papel higiênico na primeira guest house pobrinha que fiquei por duas horas, então me preveni e enxugo o chão com a toalha roubada. Fico pensando que, assim como o trânsito caótico, talvez o banheiro molhado também seja mais uma das bizarras estratégias indianas de controle populacional. Deve haver uma quantidade enorme de gente que entra, derrapa, bate a cabeça e morre, mas como tem gente demais nesse pais, acho que eles nem notam.



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O inglês dos budinhas é muito ruim e, pra eles, meu nome é um desafio fonético. Aqui eu sou tudo, menos Antonia, como vocês podem ver:

- What’s your name?
- Antonia.
- Amônia?
- Antonia.
- Tonia?
- ANtonia.
- Andréa?
- Antonia.
- Antinoa?
- Antonia.
- Otina?
- Antonia.
- Tânia?
- Yes, yes...