amores expresos, blog da Antonia

sexta-feira, 2 de novembro de 2007



Hoje faz um mês que cheguei nesse país filho da puta. Se eu tivesse sido mais esperta, teria gasto meu tempo e o meu dinheiro indo de Paris para Berlin, então Kassel, daí 30 dias na Índia, e Brasil, meu Brasil brasileiro. Mas não, caí no conto do sadhu e vim conhecer as mazelas desse país assustador – pra vocês verem como eu não estou louca, até os monges tibetanos, uns santinhos, não gostam muito da Índia ou dos indianos. Por outro lado, acho que a Índia é isso mesmo: este grande perrengue que, quando você tem a possibilidade de fugir dele e se isolar num monastério, num ashram, num curso intensivo de yoga você se joga com a intensidade de um náufrago que encontra um pedaço de madeira flutuando no meio do oceano. Se eu não tivesse sofrido feito uma cadela magra e sarnenta, passado por esse processo intensivo de despojamento, talvez eu chegasse aqui em Sherab Ling e só fosse me ligar na comida péssima e na na bosta que é tomar banho de balde no escuro.

***

Sobre os banheiros indianos: nos hotéis medianos a luxuosos são estilo ocidental, mas nos lugares mais simples, como essa guest house no mosteiro – limpinha e ajeitada -, é estilo indiano mesmo, ou seja, sem box, sem cortina, sem banheira, sem aquela proteção pra água não molhar tudo, então fica tudo molhado mesmo e eles não te dão rodo ou tapetinho – sorte que eu roubei uma toalha no hotel de Mcleod Gang, porque não tinha toalha nem papel higiênico na primeira guest house pobrinha que fiquei por duas horas, então me preveni e enxugo o chão com a toalha roubada. Fico pensando que, assim como o trânsito caótico, talvez o banheiro molhado também seja mais uma das bizarras estratégias indianas de controle populacional. Deve haver uma quantidade enorme de gente que entra, derrapa, bate a cabeça e morre, mas como tem gente demais nesse pais, acho que eles nem notam.



***

O inglês dos budinhas é muito ruim e, pra eles, meu nome é um desafio fonético. Aqui eu sou tudo, menos Antonia, como vocês podem ver:

- What’s your name?
- Antonia.
- Amônia?
- Antonia.
- Tonia?
- ANtonia.
- Andréa?
- Antonia.
- Antinoa?
- Antonia.
- Otina?
- Antonia.
- Tânia?
- Yes, yes...

7 Comentários:

Blogger Eu penso que... disse...

Antonia,
Deve ser esta a "revolução espiritual" que todos dizem passar quando retornam da Índia.
Depois de passar por um calvário desses, qualquer coisa vira fichinha...não é?
Quando você voltar, provavelmente, dará muito mais valor a um sabonete, papel higiênico, lençol limpinho, toalha cheirosa, etc, etc, etc.
Acho que o choque com a realidade deles e a nossa (ocidental) é que serve como ensinamento. São mundos completamente distintos e prioridades diferentes.
Me corrija, caso esteja errada.
Tudo de bom... e se posssível um ótimo fim de semana para você!
Bjs.

2 de novembro de 2007 13:01  
Blogger Ana disse...

preciso dizer-lhe, ainda que seja apenas mais um comentário qualquer: admiro seus escritos; e o poucos dos pensamentos que pude avistar ter, pelos escritos deste blog.

conheci seu trabalho pelo conto publico no livro '[dentro de] um livro'. conto, aliás, realmente fantástico.

certo, apenas isso.
boa noite *;

3 de novembro de 2007 17:30  
Blogger Antonia Pellegrino disse...

oi Ana, obrigada pelo comentário e o elogio. fico feliz que vc goste do conto e do blog.

***

sobre "revolução espiritual" na India, eu acho isso meio mítico. papo de europeu. O lugar onde eu estava fica na India mas não é a India. O que eu vejo aqui são as pessoas passarem por uma revolução de agressividade, depois um momento de aceitação da realidade. mesmo tendo ido a sherab ling, eu não gosto da India. talvez até um dia volte pra cá, as vá direto pra sherab ling. mas não sei. E com certeza, eu nunca fui tão feliz pela vida que tenho, pelo país em que nasci; nunca fui tão brasileira e amei tanto meu país.

3 de novembro de 2007 20:13  
Blogger Leitora disse...

Nossa, quem te mandou pra esta viagem? Claro está que acostumada a cremes L'occitane, banhos de estremecer Al Gore,Ipods e outros balangandas, a princesa não era a escolha mais acertada mesmo.

22 de março de 2008 20:02  
Blogger José Orlando Loro Filho disse...

Seu nome é Tonha!
Te achei de novo.
Adorei!
Beijão

15 de dezembro de 2009 18:40  
Blogger luiz valberth Fonseca disse...

não te conhecia e por acaso, acordei cedo e estava vasculhando a tv a cabo e parei no Arte1, adorei te conhecer, vou te seguir sempre.......bjos e boa sorte!

21 de janeiro de 2014 02:26  
Blogger luiz valberth Fonseca disse...

Gostei muito do paradoxo entre a cidade que tem nove milhões de habitantes e a India com incriveis um bilhão e duzentos milhões

21 de janeiro de 2014 02:30  

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